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Vida

A luz do lustre

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Vinícius Silveira
25 de setembro de 20266 min
Capa do post A luz do lustre

No começo da noite, eu estava no sofá da sala, com a luz quente do lustre acesa. Minha esposa estava com a caçula, e a casa estava naquele ponto gostoso em que ninguém precisa estar fazendo nada para tudo parecer exatamente como deveria. A Anna Laura apareceu. Não veio com queixa. Veio com medo.

Ela tinha reparado em alguns fios brancos na minha barba e ficou inconsolável — daquele jeito que criança fica, sem meio-termo — porque não queria que eu envelhecesse. Cinco anos. E já preocupada com o tempo.

O que eu podia ter dito

Ela tinha duas preocupações: meu cabelo e minha barba ficarem brancos e, principalmente, a minha voz mudar. O caminho mais óbvio seria explicar. Dizer que cabelo grisalho é normal, que acontece com todo mundo, que não tem nada de errado com isso, que a idade é assim mesmo. É exatamente o que eu provavelmente diria se um amigo me perguntasse.

Mas ela não queria uma explicação. Então eu perguntei o que a gente podia fazer.

Ela disse que não queria que eu envelhecesse. Eu perguntei de novo: “E o que a gente faz com isso?” Ela pensou. Eu dei uma opção: se um dia meu cabelo e minha barba ficassem todos brancos, ela poderia pintar do jeito que quisesse.

Ela pensou mais dois segundos.

Roxo.

A gente riu.

E aqui eu preciso ser honesto, porque é fácil transformar uma história dessas numa história bonita de pai brilhante: a ideia da pintura não foi dela. Eu dei a opção. Ela escolheu o que fazer com ela. Não tinha pincel, não tinha tinta, não tinha barba roxa. Era só um plano inventado no sofá, pouco antes da hora de dormir.

E foi suficiente.

O que eu realmente disse

Depois fiquei pensando naquela conversa, porque eu tinha feito uma coisa que só entendi direito depois. Eu não tinha resolvido nada. O cabelo poderia ficar branco, a barba poderia ficar branca, minha voz poderia mudar. Eu não tinha como controlar nenhuma dessas coisas.

Mas tinha uma coisa que eu podia fazer.

Ficar.

Eu disse — e repeti mais de uma vez — que ela podia acreditar no que eu falasse, que eu estaria ali e que, acontecesse o que acontecesse, a gente resolveria junto. Essa parte não dependia da idade, da barba ou da voz. Não tinha prazo.

Talvez seja isso que uma criança procure quando está com medo de alguma coisa que ainda nem aconteceu: não necessariamente uma resposta, mas a certeza de que não vai precisar enfrentar aquilo sozinha.

Resolver não é a mesma coisa que atravessar

Eu poderia ter negado. Poderia ter dito “isso nunca vai acontecer”, mas seria uma promessa que o tempo poderia desmentir. Também poderia ter diminuído: “isso não é nada, é só cabelo”. Talvez ela até se acalmasse por alguns minutos, mas o medo continuaria sendo só dela.

Em vez disso, a gente colocou o medo no meio da sala e decidiu o que faria com ele.

Roxo.

E pronto.

O que me pegou nessa história é que, como pai, a gente passa muito tempo achando que precisa resolver os problemas dos filhos. Talvez porque, quando eles são pequenos, quase tudo realmente dependa da gente. Mas existem coisas que não dá para resolver. O tempo passa, as pessoas mudam, a vida acontece.

E talvez uma das coisas mais importantes que eu possa ensinar para as minhas filhas seja que elas não precisam ter controle sobre tudo para conseguirem atravessar alguma coisa. Às vezes, basta saber quem vai estar ao lado deles quando aquilo acontecer.

Eu faço isso com software também

Foi aí que eu percebi uma coisa engraçada: eu faço algo parecido com isso no trabalho há anos. Quando a gente constrói um sistema, não coloca tudo o que existe por trás dele na frente de quem está usando. A pessoa não precisa saber da fila, da tentativa que falhou e foi refeita, da dependência que resolveu alguma coisa antes da tela ou daquele registro de auditoria que provavelmente ninguém nunca vai ler. Ela precisa saber o que está acontecendo e o que pode fazer a partir dali.

É um recorte. E escolher esse recorte é uma responsabilidade.

Mas, naquela noite, isso era só um detalhe. Porque dessa vez não tinha sistema, tela, arquitetura ou usuário. Tinha uma menina de cinco anos preocupada porque o pai estava envelhecendo, e tinha um pai tentando encontrar uma forma de dizer que algumas coisas vão mudar, outras ele não sabe como vão ser, mas uma delas ele sabe.

Eu fico.

A luz continuou acesa

Depois daquela conversa, fizemos nosso devocional. É algo que eu procuro fazer com a família sempre que consigo: lemos uma passagem da Bíblia, conversamos um pouco sobre ela e oramos juntos, minha esposa, as meninas e eu. Nem sempre a rotina deixa, nem sempre consigo fazer como gostaria, mas é algo que tento preservar.

Depois fui colocar a Anna Laura para dormir. Dei um abraço, um beijo e coloquei ela na cama. Fiquei no quarto até ela adormecer, como faço todos os dias. Não tinha mais nada para resolver naquela noite. Só ficar ali mais um pouco.

Quando saí do quarto, minha esposa e a caçula já tinham adormecido no sofá. Eu fui tomar meu banho tranquilo, e foi ali, sozinho, que voltei a pensar em toda aquela conversa.

Pensei no medo dela. Nos fios brancos. Na pergunta sobre a minha voz. No roxo. E principalmente naquela sensação de que, para algumas coisas, eu nunca vou conseguir dar às minhas filhas a resposta que elas gostariam de ouvir.

Talvez ser pai seja muito disso.

Não impedir que as coisas aconteçam. Não ter sempre a resposta certa. Não conseguir consertar tudo.

Só conseguir ficar.

Depois do banho, acordei minha esposa com cuidado e fomos dormir também.

A luz do lustre já estava apagada.

Mas, de alguma forma, aquela conversa ainda estava acesa na minha cabeça.

E eu acho que vou lembrar dela por muito tempo.

Eu fico.

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Vinícius Silveira

Tech Lead que acredita que software bom começa com gente bem cuidada. Eu não construo só software.