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Arquitetura

A arquitetura mais elegante é a que ninguém percebe

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Vinícius Silveira
19 de julho de 20264 min
Capa do post A arquitetura mais elegante é a que ninguém percebe

Há algum tempo, mostrei um sistema em que trabalhei durante anos para uma pessoa que não é da área de tecnologia.

Ela navegou por alguns minutos, consultou o saldo, fez um PIX e pagou um boleto. Depois olhou para mim e perguntou:

"Era isso que vocês ficaram construindo esse tempo todo?"

Era.

E, curiosamente, aquela foi uma das melhores respostas que eu poderia ouvir.

Porque ela não comentou sobre arquitetura. Não perguntou qual framework usamos, nem quis saber como organizamos os serviços. Ela simplesmente conseguiu fazer o que precisava. No fim, era exatamente isso que estávamos tentando construir.

É fácil esquecer disso quando passamos os dias discutindo padrões, pipelines, microsserviços, observabilidade, segurança, deploys e arquitetura. Mas o usuário nunca acorda pensando em nenhuma dessas coisas. Ele só quer que o sistema funcione.

A arquitetura que desaparece

No começo da minha carreira, eu gostava da ideia de construir soluções que impressionassem outros desenvolvedores. Quanto mais sofisticada parecia a arquitetura, melhor. Quanto mais camadas, abstrações e diagramas, maior era a sensação de estar construindo algo importante.

Demorei um tempo para perceber que eu estava medindo as coisas pela régua errada.

Hoje, quando alguém usa um sistema e nem sequer pensa em como ele foi construído, eu enxergo isso como um elogio. Significa que a tecnologia deixou de ser protagonista e deu espaço para o que realmente importa: resolver um problema.

É curioso como isso acontece em várias áreas da nossa vida.

Ninguém elogia um elevador porque ele chegou ao andar certo. Ninguém agradece porque o semáforo abriu na hora esperada. Ninguém publica no LinkedIn dizendo que um sistema respondeu em 200 milissegundos.

Essas coisas passam despercebidas justamente porque cumpriram seu papel.

Acho que arquitetura é parecida com isso. Quando ela faz bem o seu trabalho, ela desaparece. O usuário não percebe, o time não precisa parar para discutir comportamentos estranhos e ninguém abre uma reunião para entender por que uma funcionalidade deixou de funcionar.

Ela simplesmente permite que o produto faça aquilo que sempre deveria fazer.

O objetivo nunca foi impressionar

Isso não significa que arquitetura não importa. Muito pelo contrário. Ela importa justamente porque influencia tudo o que acontece depois.

Ela define o quanto um sistema será fácil de evoluir, o quanto será simples encontrar um problema, o quanto um novo desenvolvedor conseguirá contribuir e o quanto uma equipe conseguirá entregar sem medo de quebrar algo importante.

Com o tempo, fui percebendo que as decisões das quais mais me orgulho quase nunca são as mais sofisticadas.

Hoje, quando preciso escolher entre uma solução extremamente inteligente e outra previsível, quase sempre escolho a previsível. Entre uma abstração elegante e um código que alguém consiga entender em poucos minutos, fico com a segunda.

Não porque ela seja menos interessante, mas porque ela continuará fazendo sentido daqui a dois anos, quando provavelmente ninguém mais lembrar do contexto em que aquela decisão foi tomada.

Boa arquitetura, para mim, deixou de ser um exercício de criatividade. Ela passou a ser um exercício de responsabilidade.

O melhor elogio

Existe uma frase que, anos atrás, talvez me incomodasse.

Hoje ela me deixa satisfeito.

"Nem pensei em como isso foi construído."

Perfeito.

Era exatamente esse o objetivo.

Porque, quando a arquitetura faz seu trabalho, ela deixa de ser protagonista. Quem aparece é o produto. Quem resolve o problema é a funcionalidade. Quem ganha é o usuário.

Talvez esse seja um dos maiores paradoxos da engenharia de software: quanto melhor o trabalho de arquitetura, menos as pessoas percebem que ele existe.

Conclusão

Hoje já não tenho tanta vontade de escrever código para impressionar outros desenvolvedores.

Prefiro escrever software que outras pessoas consigam manter. Prefiro criar estruturas que sobrevivam à minha presença no projeto. Prefiro que o próximo desenvolvedor encontre clareza em vez de genialidade.

No fim das contas, talvez a arquitetura mais elegante seja justamente aquela sobre a qual ninguém comenta.

Porque ninguém precisou abrir um chamado. Ninguém precisou marcar uma reunião para entender o que aconteceu. Ninguém precisou pensar na arquitetura.

Ela simplesmente deixou o software fazer aquilo que sempre deveria fazer.

Funcionar.

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Vinícius Silveira

Tech Lead que acredita que software bom começa com gente bem cuidada.